Minha mãe disse que lá em casa tinha um quarto de gritar. Eu não sabia bem pra que servia. Que dizer, um quarto de gritar só serve pra isso? A principio era. Ela dizia... “Nina, lá dentro você pode gritar o quanto quiser! Ninguém te escuta...”. Ela geralmente ficava horas lá. Não se escutava nada. Nadinha. Eu não podia entrar. Nunca pude. As vezes se via, assim de soslaio, que lá dentro tinha cama e parede branca. Depois de um tempo, comecei a perceber os tipinhos estranhos que entravam lá. Uns velhos gordos. Uns de cabelos estranhos. Carecas. Uns cheiravam a tabaco. Álcool. Outros a perfume barato. E, sabe, mulheres também. Mamãe dizia que eram amigos e amigas. Eu acreditava, mas a regra era nunca cumprimentar eles. Tinha também as quintas-feiras. Quinta era meu dia preferido, não porque minha mãe nunca estiva... Era a sensação de ser dona de si mesmo. Andar pela casa. Usar as roupas dela. Os perfumes em vidros coloridos. O batom, o vermelho... “Vult nº1”, mamãe tinha aquele ar de atriz de filme antigo. Isso se considerar o fato de sempre estar de cinta-liga e, não sempre, espartilhos sensuais. Eu adorava a ver por horas, desfilando com o telefone na mãe. Foi numa dessas quintas que apareceu um dos amigos da mãe. Ele bateu na porta. Eu corri com a boca cor de flor, e os sapatos altos. Só com uma camisola de pijama, cheia de bichinhos. Abri a porta e ele tinha aquele cigarro na boca. Jogou a fumaça no ar. O cheiro sempre me deixou meio tonta. Tinha a voz bem grave, devia ser por causa do tabaco. “A Janine tá ai?”. Eu disse que não, mas ele foi entrando... “eu espero”. A mãe sempre disse que educação é importante, então fiquei na sala também. Ele cruzou as pernas, sentado no sofá como se fosse rei daquele lugar. O que não era. Eu liguei a tv, não gostava do silêncio acompanhado. O cigarro continuava flutuando no ar. Me prendeu a atenção no começo. Pareciam pequenos animais correndo pelo teto da sala. Mas depois percebi que ele não estava assistindo televisão. E eu comecei a ficar meio encabulada com aquilo. A quinta nunca tinha sido tão estranha. Eles geralmente só vinham com a mamãe. Ele se ajeitou no sofá. Descruzou as pernas. Deixou-as bem abertas, afastadas, como se tivesse o mundo nas cuecas. “Sabe, tu parece com a tua mãe...”, eu gostei disso. Sorri largo. Eu estava como ela. Era filha dela. Eu tinha de parecer ela. Perdi meu desconforto nessas frases. “Quantos anos tu tem minha flor?”, eu respondi... Mas ele não deu muita bola. Continuou com a mesma cara de meio sorriso. “Tua mãe costuma demorar?”, sabe, ela costumava demorar, então não menti. Eu queria que ele fosse embora. Ele não foi. “Olha, tu pode me ajudar... Acho que uma garotinha como você sabe se virar sozinha, e deve saber onde achar as coisas nesse lugar. Eu deixei um envelope no quartinho da tua mãe, aquele branquinho no final do corredor... Não teria como eu pegar lá?”... Eu respondia que não tinha as chaves. “Não precisa minha pequena, eu tenho uma copia aqui...”, e eu sabia que era errado, porém, era o quarto de gritar. A curiosidade quase sempre é maior que a gente. Eu o levei até a porta, pelo corredor apertado do nosso apartamento. Ele sempre nas minhas costas, como uma grande sombra. Ou uma árvore que cresceu mais que a casa. Assustadora em dias de chuva... Ele abriu a porta com uma chave pequeninha. Entrou e ascendeu a luz. Era realmente como eu imaginava. Fiquei na porta admirando aquele lugar, aqueles cheiros estranhos. Ele revirava as gavetas de uma cômoda simples. Depois embaixo da cama. Sabe, além disso, não tinha mais nada no quarto. No máximo a cortina bege que quebrava os tons de quietude... “Tu pode me ajudar aqui querida, não consigo olhar bem embaixo da cama...”, eu tive um pouco de receio. Mas acabei entrando. E foi em questão de segundos que a porta fecho e eu percebi... Dentro daquele quarto não se escutava o mundo lá fora...
Por Martins, Fernando Lucas
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