"A reflexão da lhama"

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Carocha


Eu estava em casa, caminhando, chorando, meio que me arrastando pela cozinha, por uma possível perda da amizade de um grande amigo, o melhor. Quando de repente pisei em uma daquelas carochas pretas que batem na lâmpada e fazem barulho. Olhei para a coitada que ali se contorcia, gritava e gemia de dor. Coitada, tão jovem e quase morta. Tratei de lhe preparar um belo caixão, com tudo o que tinha direito, até mesmo um vestido feito com a ponta de uma meia para ela usar... Mas tirei-o pensei que ela poderia ficar um pouco constrangida, caso fosse um carocho, ele poderia se sentir gay usando vestido, acabei deixando ela pelada mesmo, por garantia.
                Fiz de uma caixa de sapatos o caixão da carocha, decorei com papeis coloridos, fitas, flores... Peguei-a com todo o cuidado, para que não terminasse de destroçar a coitada, e com toda a delicadeza do mundo coloquei-a no caixão. Cutuquei a carocha para ver se ainda reagia, e em meus pêsames, ela se fora.
                Comecei a preparar uma bela cerimônia, digna de uma carocha, que lutou pela vida até o fim. Peguei velas, fiz um buquê com flores do campo, convidei meu vizinho, e até abri a bíblia e li João (4: 23) para ela. Enterrei-a no quintal, em meio as mais belas flores do meu jardim.
                Por mais que eu tenha feito tudo o que fiz pela carocha, acho que a mal agradecida não se contentou, e depois de seis meses passou a me atormentar. Todos os dias era a mesma coisa, cerca de seiscentas carochas por noite, ficavam batendo nas minhas lâmpadas e voando pela minha casa, no começo eu mal conseguia dormir, depois me acostumei. Tentei de tudo para exterminá-las, mas elas eram mais resistentes do que qualquer inseticida ou chinelo. Tentei me mudar de casa também, mas mesmo assim elas me seguiam. Tive então a idéia de colocar fogo na minha casa quando elas estivessem lá, mas quando eu saí de dentro da casa que estava em chamas, as carochas saíram também. Comecei a aceitar o fato de que eu seria acompanhada por elas eternamente, e depois de trinta e seis anos, eu já estava acostumada, pois elas já conviviam comigo até durante o dia. Até o dia em que faltou luz a noite, e eu coloquei uma vela no bidê perto da cama, acabei dormindo sem querer, e o fogo da vela pegou na cortina, e se alastrou pela casa. Morri carbonizada com as minhas carochas.

Por Figueiredo, Cristal

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